28.11.09

Entre o céu e o mar


Navegar, nem sempre é preciso; nesse caso, navegar é muito incerto. A única coisa certa, em se tratando de Antártida é a incerteza. Previsão, cronogramas e afins servem para uma única coisa: sofrerem alterações. Enquanto escrevo, sentada em frente ao Estreito de Magalhães, no cais da Asmar, onde está ancorado o Navio de Apoio às Pesquisas Oceonográficas (Napoc) Brasileiro, Ary Rongel (incorporado à Marinha desde 1984), a única informação precisa que tenho quanto a nossa ida ao continente é que 'nada está certo', como afirmou o Comandante Romualdo, da assessoria de imprensa da Marinha do Brasil.

A única previsão que seguimos aqui é a do tempo e, segundo os meteorologistas, as coisas não estão nada propícias ao embarque, seja pelo mar ou pelo ar. Até o momento em que escrevo (19h no horário de Brasília), a maioria da tripulação considera mais provável que embarquemos nesta terça-feira, mas de carona com o avião de apoio da Força Aérea Brasileira (FAB).

A idéia não me agrada muito, tampouco os outros companheiros da imprensa. Antes de virmos até Punta Arenas, a Marinha nos deixou a liberdade para escolher se queríamos realizar a travessia com o navio ou com o avião. Quem está aqui, já estava 'psicologicamente' preparado para viver as aventuras do temido 'Drake', um dos locais com as piores condições meteorológicas para a navegação, e um desafio para qualquer marinheiro, principalmente os de primeira viagem. Na segunda-feira, as informações oficiais eram de que as ondas no Drake chegavam aos 8 metros.

A Marinha não descartou a possibilidade de voltarmos, então, pelo mar, caso confirme a ida com o avião, que realiza a travessia até a Baía do Almirantado - endereço do Brasil no Antártida - em cerca de 3h, bastante diferente da travessia marítima, que leva cerca de 4 dias, caso o 'Drake' esteja mais 'tranquilo'.

Enquanto aguardamos uma posição oficial, o melhor que há para se fazer aqui, já embarcados no navio, é conhecer melhor as instalações.

Toda a imprensa que participará desta fase da Operação Antártica (Operantar) embarcou no domingo. Como 'toda', leia-se eu, mais o repórter do Estadão Carlos Orsi, e dois repórteres cinematográficos da Cia. do Filme, de Brasília, que estão filmando um documentário.

Os demais fizeram a opção de irem pelo 'ar', e na segunda-feira levantaram voo rumo ao continente. Caso confirmem nossa ida nesta terça-feira, provavelmente na quarta-feira já estaremos na Base Comandante Ferraz, conhecendo seus 60 módulos que abrigam militares para a manutenção e pesquisadores. Lá, são realizadas importantes pesquisas sobre biologia, geologia, oceanografia e, principalmente, mudanças climáticas, já que a Antártida é o local mais apropriado para os estudos sobre aquecimento global, camada de ozônio e outras mutações climáticas que interferem, diretamente, na vida do planeta.

No primeiro dia no Ary Rongel tudo foi novo, a começar pelos acomodações. Depois de dois dias hospedada em um hotel 4 estrelas, com cama gigante e banheira de hidromassagem, senti na pele o motivo da tripulação chamar, carinhosamente, os aposentos de 'Sarcófago'. Eu chamaria de gaveta, que me pareceu bastante similar. O principal problema está na 'operação' para caber em uma das camas do treliche - são dois em um único quarto que ainda tem banheiro e armários. Depois do malabarismo inicial, tudo volta a normalidade e dorme-se bem; é só não ser claustrofóbico.

Na rotina diária, os oficiais se esforçam para que nos sintamos à vontade e conseguem. Na segunda-feira, após o almoço ( arroz, feijão carioca para combinar com a tripulação, salada e filé de frango grelhado), teve ainda um bolo em comemoração ao aniversário de médico responsável pela tripulação. O que se sente é que a intenção é tornar o ambiente o mais familiar possível, mesmo sob uma rotina militar. A maioria regressará para casa apenas no que é considerado o início do inverno antártico, em março.

Com uma tarde de primavera onde a temperatura máxima é de 4 graus centígrados, não fica difícil entender o motivo que leva a Marinha a considerar apenas duas estações para a realização da operação; outono e inverno é quando as condições de acesso ao continente são mais delicadas, por esse motivo, apenas militares e pesquisadores pemanecem no local. Na primavera e no verão austral dá-se o descongelamento das geleiras e a diminuição nas passagens de frentes frias que impedem a locomoção, e é nessa época em que se realizam as Operantar’s, que vão de outubro até março.

Um comentário:

joao disse...

saudade de vocë mairoca!!! em volta, tudo gelado, mas um calor humano que só brasileiro tem né?

beijos,

joão
cia do filme