Sunday, May 31, 2009

-estranho. mas o conhecia como a letra inteira de uma música perdida. pela melodia. e era um dia inteiro depois das tardes. como se inaugurasse o sol nas encostas da noite. depois de toda morte. soprava ao pé do ouvido. e os pés partiam em mim em ladrilhos. todos desconhecidos. riscando novos riscos. arrancando a letra que forma o nome. comprido. cumprindo à risca a sentença de estarmos vivos. e sósagora restam as letras do seu nome. não se repetem. percebo. quase soprado. beijo na face.as vezes eu mordo a língua. e não te acho mais.__MF

Wednesday, June 18, 2008

Outono

Então me vêm os astros. Dominar aquilo que eu em sei. E eu me entrego toda em explosões estelares. Viro fagulhas de algum Big Bang interno. Uso termos coesos. E eu que nem sei.
Mas a esta altura, o que é bom pode durar toda a vida, e eu já não tenho a pressa presa aos cabelos. Eu entendo até o desacelerado das horas. E compro promessas para cumprir num dia de santo.Há tempos guardo num pano o plano de estarmos bem e só – e daqui, de longe, me parece ato solene. Então peço sirenes pela cidade. Que me alardeiem do quanto distante é o querer da pelugem da sua nuca. Que nunca se anuncia. Diferente desta estação indefinida que me invade toda.

Wednesday, June 04, 2008

Despachos
imagem: Yves
"Nos meus retiros espirituais, descubro umas coisas tão banais...Que gente maluca tenta resolver" (Gil em Retiros Espirituais)
27
Aquilo que desenhava na alma. Cheia de dedos. Presa. Começa a doer à cabeça, o coração. Os lábios amortecidos da mesma posição de minutos. Travando aquilo que não tem como sair. Ela tem um teclado, ela está trancada, ela adoece no espelho e se enfeita de instantes. Ela tem vocação e afeições – vive aflita. Ela mora no 27.

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Bolha
Não assumo a fala em primeira pessoa. Quase nunca. E aos pouco vem à necessidade em queimar a ponta dos dedos. Agora a coleção de bitucas desenha uma flor de pétalas branca ao lado de um telefone. Mudo. Há de haver um lugar no mundo onde caiba a dúvida. Ligo. Não ligo.

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Espelho de teto
Você fala, eu desenho. E essa voz que muda e interpreta. Eu quase muda. Aí você se demora em dar as chaves. Eu não descanso enquanto morro. De você, os tratados formais. Agora já chega um pouco mais cedo. Não sei se gosta. E aceito que me confira um grau para qualquer talento. Enquanto caço olheiras pelo retrovisor. Nem me questiona sobre o meu tanto de visitas. Engrossa as vistas e se preocupa com as outras estações. Pare o carro! Pede alguém à frente. A gente nem se olha. A estrada logo acaba onde inicia a outra.

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Estação
Não é difícil. Também não dói daquele jeito de querer juntar os joelhos no estômago – e espremer a nesga de espaço que nada sente. E não acontecem sinais no céu. Nada de roxo-laranja-rosa. Nada de sol insone ou de luz exibida. Não escorre. Não brotam escamas, esporas da minha pele que sente calor e frio e meia-estação. Mesmo sem nunca ter entendido o que é meia-estação. Não mato e se morro é só até o final da música. Aperto o botão.

imagem: Bruno Cecim

Sobre o tempo
"Vêde o pé do ypê apenasmente flora. Revolucionariamente. Apenso ao pé da serra" (Belchior em Ypê)

Arqueada. Magra. Morenice de um sol sem requintes de fator de proteção. Pisa a terra com pés. Não precisa também da proteção da borracha, do couro ou do plástico. Tráz as unhas pretas nos pés como na pele. Está às voltas do fogão. Um móvel imóvel esculpido na tábua pelo barro. Buraco de onde saem labaredas. Ela ajeita o galho seco para insinuar o pedido de mais calor que o gato pequeno e rajado pede, na boca do forno.
Lá fora, o dia insiste em acontecer.

A água que espera ferver é para a fusão com o pó do café colhido no quintal, torrado e moído por ela no pilão que descansa embaixo da mesa. O café é para mim. E mora dentro de uma lata que tem cheiro de casa amanhecendo.

Na casa, os gatos ainda pequenos sobem e descem das mobílias escurecidas pela fumaça. A fumaça, como o tempo, não entende as cores vivas. Eu fumo como quem pinta um tom de morte para selar o passar do tempo. Tudo o que nos une é nossa separação. E o tempo fuma nossos momentos de lacônismo. Sobe a fumaça e anuncia que o café está pronto, preto. E que o tempo é fumaça. Tem desgraça, mas tem graça. Tem tosse, mas tem silêncio.

Ela foge dos meus olhos desviando o pretume da minha história, do mesmo modo que o menino que não suporta se demorar em mim desvia o seu brancume do cume dos meus olhos. Acho graça. A história que aconteceu sem ser, e a que não sendo, acontece.
Quando a abraço, queria ter intimidades de saber quantos são os ossos que comprimo. Quando o abraço - também.

Ela fala como quem domina um alfabeto peculiar. Aprendeu na nova terra o escudo da salvação: a língua. Passado mais de 50 anos, difícil crêr que, quando roubada para estas terras, não sabia a própria língua da nação. Hoje fala um linguajar nato. Não é mais a menina bonita de pele escura e olhos de gato que um tal senhor, pelo tal do amor, tirou da proteção de uma colônia de nativos no sul do país, para uma região pobre de peões do minério.

Ela pouco lembra e fala com um paiero que equilibra no canto da boca murcha. O mais sensível dos amigos identifica a beleza que se perdeu, atrás da fumaça. Perdeu o amor por uma picada de cobra, antes, vieram os filhos. Uma mistura que riscou um exótico em minha mãe: morenice fundida em olhos de gato.

- É bão viver assim!
Quando ela me fala acredito. Peço a benção com timidez. Ela acolhe com a mesma condição. E são tantos tios e primos que eu jamais decorarei. Aí vejo minha mãe no outro cômodo da casa que têm frestas de madeira e chão batido. Lá fora, um banheiro de casinha. Minha mãe ri e em algum lugar desponta raiva, compaixão e infância. Eu não posso entender sua incompreensão de sentimento. Ela acelera, volta, mas sou eu que continuo na cozinha. Um espaço retirado da casa, como são as casa nos sítios. É lá que ela, magra e arqueada fica. Minha mãe não consegue, por algum sentimento ativo, atingir a intimidade da cozinha. E ela, por sua vez, não consegue cobrar essa intimidade de minha mãe, nem transpor os espaços de madeira em aberto.

Há um peru gordo em cima da árvore, galinhas, galos, gatos, cachorros e porcos no quintal. Há um córrego atrás que, quando inunda, atinge a casa. Há mato e do outro lado plantação de milho, feijão, arroz, mandioca e café.
Ela vive da agricultura há anos. Com meu amigo sensível e biólogo que nos acompanha, começo a discutir a questão da crise alimentícia, da soja, da intenção de morar no mato e fazer uma produção em mandala. A irrigação, a inflação e a exportação. Ela observa sem desviar o olho da fumaça do fogão, que defuma pedaços de carne. Ela interfere e nos diz que o que vivemos é uma loucura. Ela vende o feijão dela por R$ 2,00 o quilo e nos pergunta quanto pagamos. Respondemos que quase o triplo e ela ri a soberba de um IDH falho.

Eu tento chamá-la de vó em um tom mais grave. Ela pergunta da gravidez da “menina”, minha irmã mais nova. Ela tem, junto a um mural de fotos de mulheres de maiô que meu tio conserva, nossas fotos. Pediu que minha mãe nos levasse em retrato. Disse que era para pedir ao “Divino Espírito Santo” por nós. E ela tem tantos netos que me sinto privilegiada.
A primeira vez que a vi, era uma festa do Divino. Havia festa, bandeira e pipoca no quintal. A primeira vez que minha mãe a viu, era também uma festa do Divino. E ela agradeceu.

Quando teve que dar minha mãe, com dias ainda, meu avô acabara de falecer, pela tal cobra. Já havia mais filhos e, a pessoa com a qual iria morar não queria mais uma, então teve que abandonar minha mãe.
- Sabia que o Divino iria te trazer de volta. Quando te entreguei pedi a ele para cuidar de você. Ela disse a minha mãe.
Ela nunca sai até o quintal para nos dar tchau. Ela nunca nos procurou. Nunca se sentiu no direito. Fica “faceira”, como diz, em saber que minha mãe estudou. Para ela tanto faz as cinco faculdades que minha mãe fez, o fato de ter um trabalho é o diferencial entre os filhos criados por ela, que só podem tirar o sustento da terra.
- A importante é estar estudada. Comentou meu tio, quando reclamei de cansaço, trabalho em demasia e distancia da mãe.
Os valores deles e a preocupação é o avançado da minha idade ainda na solteirice.

Antes de sair, fiquei procurando motivos que defendesse o meu parecer de que a avó que conheci tardiamente, coitada, trata-se de uma pessoa bastante pobre. Não usa sapatos, as roupas são surradas, a casa é de madeira com frestas. Tudo de material muito simples. Sem computador, sem banheiro, no muito um rádio e uma televisão. Assim como eu, sem geladeira. O fogão é à lenha. Nada lá é uma Brastemp. Sem água encanada. Sem piso no chão. Sem salário fixo... Mas não consegui.
Voltei com sacolas de arroz, feijão, mandioca, palmito, café e carne de porco conservada na própria banha, em lata. Mesmo sabendo que quase nada eu consumiria, sai imponente. Sem contar que ganhei duas esteiras de Itaboa, para colocar embaixo do meu colchão ortopédico que fica no chão, e outra para, enfim, me desfazer do velho e sem graça sofá-brega-azul e liquidação.

Enquanto a lua despontava, nos entretemos numa prosa, já que a televisão pega mal.
Ela arruma o lenço para prender os fios brancos que despontam. Cruza as pernas magras como quem apinha madeiras. Cuida do fogo que só é mantido para manter a calefação. Falo que este frio da noite e sol da tarde é bem outono, com a autonomia de quem rouba a cola alheia e sustenta o X na afirmação. Ela desfaz com a cabeça, me corrige e diz que é coisa do tempo e tempo não tem essas coisas:
- Tá começando a formar chuva e já amanhã pode cair uns pingos por cá. Já é hora de chover esses dias que eu sei. Ela disse olhando para um céu limpo.
- Sabe como vó? Perguntei meio incrédula e dizendo que a previsão da televisão era para o final da tarde.
- Sei por saber, oras, e olha que começa a pingar cedo, avisou, olhando para o céu e para o nada, como se equivalente.
E de nada adiantaria dizer que, diariamente, acompanho a previsão. Lembro que a tv ali, também não pega bem para ter acesso a estas informações. Vamos embora na estrada de poeira acompanhando a lua que, diferente de nós, sobe serra.
Na manhã seguinte. Tempo de fechar malas e as vistas. Enquanto o carro passa pelos morros da infância que insinuam traços femininos. Os pingos da chuva que deslizam no vidro no carro não me parecem assim mais tão precipitados.
*(Para quem cobra histórias/estórias)

Wednesday, April 02, 2008

Imagen: Yves (Paradise Now)
Quem vive por último já morreu ou (Quem morre no outro não vive)


"Que a vida lhe dê muita saliva, pra lamber sonhos em carne VIVA" (Kléber Albuquerque em Isopor)

A dor era por não haver sinais físicos. Enquanto corrompia-se no cerne, amontoavam-se ossos saudáveis a olhos nus. Ele queria muito morrer naquelas tardes e o homem desconhecido lhe atestava sanidade. De um ponto mais ilha do que porto ele acenava. Os sinais vitais coravam as faces que queria estar embebida em éter. Em algodões que suavizassem as narinas do fétido dos dias comuns. Da dor do mesmo amor de todos os dias há anos. Será que ainda respirava? Inspirava-se naquilo que retia no suor, por medo. Vertia da glabela o iodo que aspirava. Intoxicação. Mas não se tocava. Tomava uma aspirina para o sentimento que incomodava. E as datas o acomodavam em retidão. Quando preso pelas horas, ir embora era uma redenção ambígua. Ficar pra onde? Ir pra quando? Não ter caminhos, agora que os anos o prendiam pela coluna, era desafio para tabuleiros. Mais fácil sugerir que alguém acertasse o alvo em movimento. Mais fácil escurecer mais cedo. Trancar-se no modo módico que o medo assalta os nervos. Arranhar a tez do mundo subcutaneamente. O fracasso dos braços que não alcançavam o abraço necessário franzia-lhe os ossos. Estalavam as estalactites de líquidos petrificados pelo tempo. Perdido, pressionava o maquinista. Em vista do que não tinha controle, o desespero.Espiava, de longe, o bloco que queria compor. De perto, calculava friamente: muita pressa, muita fumaça, muita gente. Desistia de ir. E angustiando a pressa da morte que nunca se anunciava. Negava-se, todo dia, LEnTALMENTE. O alento era morder as palavras proferidas de lábios que lhe cuspiam estrelas.Cadentes. Poderia ser a chance. Mas nunca soube fazer a elas o pedido.
Imagem: Yves
A Ressaca dos MALES (Para Sandra)
"A mulher em milhares" (Luiz Tatit em Capitu)

ONTEM - Uma sala de entornos a serem decifrados abria-se, quando permitia o afago do espaço. Toda cheia de vagos. Um caldo, um Diazepam.
As dores musculares morfinavam-se na brandura do auto-trato.
Ela só pedia o que negava.
As outras dores, em doses homeopáticas, findavam-se com o carnaval. E ele passou sem rastros.
Na espera, a fuga acarinhava as horas. Suas demoras. E era um tempo em que esperar a felicidade era como roubar amoras sem deixar nódoas. Ela trazia o gozo estampado na camisa e as marcas furtivas desvelam-se subcutâneamente.
Entre os dentes não aceitava nem os eternamente contentes, tão menos os incontestáveis. Inconteste.
A ressaca dos mares a entretia e a entediava. Não tinha crivo para ser Capitú, mas não teria peito para ser outrazinha. Antes então seus pêlos soltos pela casa ao apelo.Antes do que o Depois que vinha sempre igual ao antes.Ela queria o agora com o novo.
E passado os dias inúteis da semana de contas exatas, que sempre finda ao sétimo dia. Com as mesmas notícias frívolas que nascem para acabarem envoltas aos olhos distantes dos peixes. Ela se permitiu.
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ÀS 21H33 DA SEXTA-FEIRA - Não teria nada a comemorar naquele janeiro. Era inteira nas metades que se juntavam, farrapo por fiapo.
Lentamente, pela sala, levantava os iMÓVEIS em mogno e soprava-lhes toda a paúra de poeira dos olhos.
Havia graça no incômodo das horas que invadiam as janelas.
Ela não possuía mais relógio e entretia-se com os saltos soltos nos tacos que não ecoavam mais, alardeando os cantos em desencontros. O som seco do assoalho já fora prenúncio de noite apagada. Não mais.

Não havia um comunicado prévio para endossar o lento do dia de quando quer-se muito "exatos momentos". E ela ia. Não mais indecisa com o aceno do tempo. Com o acerto do imbróglio que nasceu para não ser coeso.
E dentro, aquilo que não cabia mais, tornou-se coisa fluída.

Monday, March 31, 2008

Imagem: Yves
D.i.s.p.e.r.s.o.s
"Você nem olhou para as coisas que admiro, e nem ouviu, mas era eu quem te chamava com meu último suspiro" (P. Moska)
E ela então jurou que, dos dias, sempre traria um pedaço no bolso. E diariamente, após a hora exata, o entregaria sem alardes. Era, por certo, a melhor fatia das horas.
Ele não suspeitava.
Ela se enfeitava, mas dentro do olho. E vagava pelo teto enquanto o mundo acontecia sem a perceber. O melhor do dia ela prendia com fitas. Aflita.
Em vezes o que guardava eram horas de atenção. Presente silente. N’outras a retórica.
Em dias entregava um tempo com histórias bobas que varria as cinzas do dia lá fora.
Em outros o momento mais leve do desvelar de um segredo infante, que desafrouxava a gravata dos compromissos formais, solenes.
E podia morrer o sol já naquele momento. E fechar o tempo enquanto voltava para casa pelo mesmo caminho de pés obedientes.
Não havia mais eventos que a despertasse para fora.
Enquanto os ventos zombavam pelos cabelos. Ele morava dentro.
E o resto, era procura: Um acalanto e uma cura pro dor dele do dia seguinte.
Ele nunca percebeu
E quando ela distraiu-se um tempo. Esquecendo de guardas das horas, pra ele, o melhor momento: ele desistiu dos dias. (sem perceber)

Thursday, February 21, 2008

orkut - Página de recados de Maíra

Monday, February 11, 2008

imagem: Bruno Cecim
- Me manda uma poesia? É quase maio.

E ele entendeu que por ser quase maio, por ser quase infinitamente maior, a voz dela não mais aparecia em caixa alta. Desenhava as palavras.
Ela que ficava bonita até enfeitada, às vezes apagava-se sozinha interrompendo as forças. As dele. Que morria pequeno, em areia, ao procurar entender como podia, tal criatura, partir-se ao meio, em aberto. E recebendo apenas um pedaço fálico, torná-lo inteiro.
O sarro da voz emaranhada distorcida num cenário de guerra. O cheiro das primeiras horas da roupa pega no varal.
Um mar e o mal do sal nos olhos nunca a impediram de esperar as ondas. Enquanto ele cuspia a ira da invasão de líquido salobro e espuma branca que a tomavam de sol a face.
Se ela pedisse, ele coraria o dia com algodões coloridos. Passaria mirando o céu sem interromper o cenário. Escreveria em cadernetas alaranjadas duas letras de um alfabeto morto e uma receita de bolo de liquidificador.
Mas não mandou um poema. Pois já era quase maio.Quase amor.