4.6.08

Despachos
imagem: Yves
"Nos meus retiros espirituais, descubro umas coisas tão banais...Que gente maluca tenta resolver" (Gil em Retiros Espirituais)
27
Aquilo que desenhava na alma. Cheia de dedos. Presa. Começa a doer à cabeça, o coração. Os lábios amortecidos da mesma posição de minutos. Travando aquilo que não tem como sair. Ela tem um teclado, ela está trancada, ela adoece no espelho e se enfeita de instantes. Ela tem vocação e afeições – vive aflita. Ela mora no 27.

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Bolha
Não assumo a fala em primeira pessoa. Quase nunca. E aos pouco vem à necessidade em queimar a ponta dos dedos. Agora a coleção de bitucas desenha uma flor de pétalas branca ao lado de um telefone. Mudo. Há de haver um lugar no mundo onde caiba a dúvida. Ligo. Não ligo.

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Espelho de teto
Você fala, eu desenho. E essa voz que muda e interpreta. Eu quase muda. Aí você se demora em dar as chaves. Eu não descanso enquanto morro. De você, os tratados formais. Agora já chega um pouco mais cedo. Não sei se gosta. E aceito que me confira um grau para qualquer talento. Enquanto caço olheiras pelo retrovisor. Nem me questiona sobre o meu tanto de visitas. Engrossa as vistas e se preocupa com as outras estações. Pare o carro! Pede alguém à frente. A gente nem se olha. A estrada logo acaba onde inicia a outra.

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Estação
Não é difícil. Também não dói daquele jeito de querer juntar os joelhos no estômago – e espremer a nesga de espaço que nada sente. E não acontecem sinais no céu. Nada de roxo-laranja-rosa. Nada de sol insone ou de luz exibida. Não escorre. Não brotam escamas, esporas da minha pele que sente calor e frio e meia-estação. Mesmo sem nunca ter entendido o que é meia-estação. Não mato e se morro é só até o final da música. Aperto o botão.

imagem: Bruno Cecim

Sobre o tempo
"Vêde o pé do ypê apenasmente flora. Revolucionariamente. Apenso ao pé da serra" (Belchior em Ypê)

Arqueada. Magra. Morenice de um sol sem requintes de fator de proteção. Pisa a terra com pés. Não precisa também da proteção da borracha, do couro ou do plástico. Tráz as unhas pretas nos pés como na pele. Está às voltas do fogão. Um móvel imóvel esculpido na tábua pelo barro. Buraco de onde saem labaredas. Ela ajeita o galho seco para insinuar o pedido de mais calor que o gato pequeno e rajado pede, na boca do forno.
Lá fora, o dia insiste em acontecer.

A água que espera ferver é para a fusão com o pó do café colhido no quintal, torrado e moído por ela no pilão que descansa embaixo da mesa. O café é para mim. E mora dentro de uma lata que tem cheiro de casa amanhecendo.

Na casa, os gatos ainda pequenos sobem e descem das mobílias escurecidas pela fumaça. A fumaça, como o tempo, não entende as cores vivas. Eu fumo como quem pinta um tom de morte para selar o passar do tempo. Tudo o que nos une é nossa separação. E o tempo fuma nossos momentos de lacônismo. Sobe a fumaça e anuncia que o café está pronto, preto. E que o tempo é fumaça. Tem desgraça, mas tem graça. Tem tosse, mas tem silêncio.

Ela foge dos meus olhos desviando o pretume da minha história, do mesmo modo que o menino que não suporta se demorar em mim desvia o seu brancume do cume dos meus olhos. Acho graça. A história que aconteceu sem ser, e a que não sendo, acontece.
Quando a abraço, queria ter intimidades de saber quantos são os ossos que comprimo. Quando o abraço - também.

Ela fala como quem domina um alfabeto peculiar. Aprendeu na nova terra o escudo da salvação: a língua. Passado mais de 50 anos, difícil crêr que, quando roubada para estas terras, não sabia a própria língua da nação. Hoje fala um linguajar nato. Não é mais a menina bonita de pele escura e olhos de gato que um tal senhor, pelo tal do amor, tirou da proteção de uma colônia de nativos no sul do país, para uma região pobre de peões do minério.

Ela pouco lembra e fala com um paiero que equilibra no canto da boca murcha. O mais sensível dos amigos identifica a beleza que se perdeu, atrás da fumaça. Perdeu o amor por uma picada de cobra, antes, vieram os filhos. Uma mistura que riscou um exótico em minha mãe: morenice fundida em olhos de gato.

- É bão viver assim!
Quando ela me fala acredito. Peço a benção com timidez. Ela acolhe com a mesma condição. E são tantos tios e primos que eu jamais decorarei. Aí vejo minha mãe no outro cômodo da casa que têm frestas de madeira e chão batido. Lá fora, um banheiro de casinha. Minha mãe ri e em algum lugar desponta raiva, compaixão e infância. Eu não posso entender sua incompreensão de sentimento. Ela acelera, volta, mas sou eu que continuo na cozinha. Um espaço retirado da casa, como são as casa nos sítios. É lá que ela, magra e arqueada fica. Minha mãe não consegue, por algum sentimento ativo, atingir a intimidade da cozinha. E ela, por sua vez, não consegue cobrar essa intimidade de minha mãe, nem transpor os espaços de madeira em aberto.

Há um peru gordo em cima da árvore, galinhas, galos, gatos, cachorros e porcos no quintal. Há um córrego atrás que, quando inunda, atinge a casa. Há mato e do outro lado plantação de milho, feijão, arroz, mandioca e café.
Ela vive da agricultura há anos. Com meu amigo sensível e biólogo que nos acompanha, começo a discutir a questão da crise alimentícia, da soja, da intenção de morar no mato e fazer uma produção em mandala. A irrigação, a inflação e a exportação. Ela observa sem desviar o olho da fumaça do fogão, que defuma pedaços de carne. Ela interfere e nos diz que o que vivemos é uma loucura. Ela vende o feijão dela por R$ 2,00 o quilo e nos pergunta quanto pagamos. Respondemos que quase o triplo e ela ri a soberba de um IDH falho.

Eu tento chamá-la de vó em um tom mais grave. Ela pergunta da gravidez da “menina”, minha irmã mais nova. Ela tem, junto a um mural de fotos de mulheres de maiô que meu tio conserva, nossas fotos. Pediu que minha mãe nos levasse em retrato. Disse que era para pedir ao “Divino Espírito Santo” por nós. E ela tem tantos netos que me sinto privilegiada.
A primeira vez que a vi, era uma festa do Divino. Havia festa, bandeira e pipoca no quintal. A primeira vez que minha mãe a viu, era também uma festa do Divino. E ela agradeceu.

Quando teve que dar minha mãe, com dias ainda, meu avô acabara de falecer, pela tal cobra. Já havia mais filhos e, a pessoa com a qual iria morar não queria mais uma, então teve que abandonar minha mãe.
- Sabia que o Divino iria te trazer de volta. Quando te entreguei pedi a ele para cuidar de você. Ela disse a minha mãe.
Ela nunca sai até o quintal para nos dar tchau. Ela nunca nos procurou. Nunca se sentiu no direito. Fica “faceira”, como diz, em saber que minha mãe estudou. Para ela tanto faz as cinco faculdades que minha mãe fez, o fato de ter um trabalho é o diferencial entre os filhos criados por ela, que só podem tirar o sustento da terra.
- A importante é estar estudada. Comentou meu tio, quando reclamei de cansaço, trabalho em demasia e distancia da mãe.
Os valores deles e a preocupação é o avançado da minha idade ainda na solteirice.

Antes de sair, fiquei procurando motivos que defendesse o meu parecer de que a avó que conheci tardiamente, coitada, trata-se de uma pessoa bastante pobre. Não usa sapatos, as roupas são surradas, a casa é de madeira com frestas. Tudo de material muito simples. Sem computador, sem banheiro, no muito um rádio e uma televisão. Assim como eu, sem geladeira. O fogão é à lenha. Nada lá é uma Brastemp. Sem água encanada. Sem piso no chão. Sem salário fixo... Mas não consegui.
Voltei com sacolas de arroz, feijão, mandioca, palmito, café e carne de porco conservada na própria banha, em lata. Mesmo sabendo que quase nada eu consumiria, sai imponente. Sem contar que ganhei duas esteiras de Itaboa, para colocar embaixo do meu colchão ortopédico que fica no chão, e outra para, enfim, me desfazer do velho e sem graça sofá-brega-azul e liquidação.

Enquanto a lua despontava, nos entretemos numa prosa, já que a televisão pega mal.
Ela arruma o lenço para prender os fios brancos que despontam. Cruza as pernas magras como quem apinha madeiras. Cuida do fogo que só é mantido para manter a calefação. Falo que este frio da noite e sol da tarde é bem outono, com a autonomia de quem rouba a cola alheia e sustenta o X na afirmação. Ela desfaz com a cabeça, me corrige e diz que é coisa do tempo e tempo não tem essas coisas:
- Tá começando a formar chuva e já amanhã pode cair uns pingos por cá. Já é hora de chover esses dias que eu sei. Ela disse olhando para um céu limpo.
- Sabe como vó? Perguntei meio incrédula e dizendo que a previsão da televisão era para o final da tarde.
- Sei por saber, oras, e olha que começa a pingar cedo, avisou, olhando para o céu e para o nada, como se equivalente.
E de nada adiantaria dizer que, diariamente, acompanho a previsão. Lembro que a tv ali, também não pega bem para ter acesso a estas informações. Vamos embora na estrada de poeira acompanhando a lua que, diferente de nós, sobe serra.
Na manhã seguinte. Tempo de fechar malas e as vistas. Enquanto o carro passa pelos morros da infância que insinuam traços femininos. Os pingos da chuva que deslizam no vidro no carro não me parecem assim mais tão precipitados.
*(Para quem cobra histórias/estórias)

2.4.08

Imagen: Yves (Paradise Now)
Quem vive por último já morreu ou (Quem morre no outro não vive)


"Que a vida lhe dê muita saliva, pra lamber sonhos em carne VIVA" (Kléber Albuquerque em Isopor)

A dor era por não haver sinais físicos. Enquanto corrompia-se no cerne, amontoavam-se ossos saudáveis a olhos nus. Ele queria muito morrer naquelas tardes e o homem desconhecido lhe atestava sanidade. De um ponto mais ilha do que porto ele acenava. Os sinais vitais coravam as faces que queria estar embebida em éter. Em algodões que suavizassem as narinas do fétido dos dias comuns. Da dor do mesmo amor de todos os dias há anos. Será que ainda respirava? Inspirava-se naquilo que retia no suor, por medo. Vertia da glabela o iodo que aspirava. Intoxicação. Mas não se tocava. Tomava uma aspirina para o sentimento que incomodava. E as datas o acomodavam em retidão. Quando preso pelas horas, ir embora era uma redenção ambígua. Ficar pra onde? Ir pra quando? Não ter caminhos, agora que os anos o prendiam pela coluna, era desafio para tabuleiros. Mais fácil sugerir que alguém acertasse o alvo em movimento. Mais fácil escurecer mais cedo. Trancar-se no modo módico que o medo assalta os nervos. Arranhar a tez do mundo subcutaneamente. O fracasso dos braços que não alcançavam o abraço necessário franzia-lhe os ossos. Estalavam as estalactites de líquidos petrificados pelo tempo. Perdido, pressionava o maquinista. Em vista do que não tinha controle, o desespero.Espiava, de longe, o bloco que queria compor. De perto, calculava friamente: muita pressa, muita fumaça, muita gente. Desistia de ir. E angustiando a pressa da morte que nunca se anunciava. Negava-se, todo dia, LEnTALMENTE. O alento era morder as palavras proferidas de lábios que lhe cuspiam estrelas.Cadentes. Poderia ser a chance. Mas nunca soube fazer a elas o pedido.
Imagem: Yves
A Ressaca dos MALES (Para Sandra)
"A mulher em milhares" (Luiz Tatit em Capitu)

ONTEM - Uma sala de entornos a serem decifrados abria-se, quando permitia o afago do espaço. Toda cheia de vagos. Um caldo, um Diazepam.
As dores musculares morfinavam-se na brandura do auto-trato.
Ela só pedia o que negava.
As outras dores, em doses homeopáticas, findavam-se com o carnaval. E ele passou sem rastros.
Na espera, a fuga acarinhava as horas. Suas demoras. E era um tempo em que esperar a felicidade era como roubar amoras sem deixar nódoas. Ela trazia o gozo estampado na camisa e as marcas furtivas desvelam-se subcutâneamente.
Entre os dentes não aceitava nem os eternamente contentes, tão menos os incontestáveis. Inconteste.
A ressaca dos mares a entretia e a entediava. Não tinha crivo para ser Capitú, mas não teria peito para ser outrazinha. Antes então seus pêlos soltos pela casa ao apelo.Antes do que o Depois que vinha sempre igual ao antes.Ela queria o agora com o novo.
E passado os dias inúteis da semana de contas exatas, que sempre finda ao sétimo dia. Com as mesmas notícias frívolas que nascem para acabarem envoltas aos olhos distantes dos peixes. Ela se permitiu.
-
-
ÀS 21H33 DA SEXTA-FEIRA - Não teria nada a comemorar naquele janeiro. Era inteira nas metades que se juntavam, farrapo por fiapo.
Lentamente, pela sala, levantava os iMÓVEIS em mogno e soprava-lhes toda a paúra de poeira dos olhos.
Havia graça no incômodo das horas que invadiam as janelas.
Ela não possuía mais relógio e entretia-se com os saltos soltos nos tacos que não ecoavam mais, alardeando os cantos em desencontros. O som seco do assoalho já fora prenúncio de noite apagada. Não mais.

Não havia um comunicado prévio para endossar o lento do dia de quando quer-se muito "exatos momentos". E ela ia. Não mais indecisa com o aceno do tempo. Com o acerto do imbróglio que nasceu para não ser coeso.
E dentro, aquilo que não cabia mais, tornou-se coisa fluída.

31.3.08

Imagem: Yves
D.i.s.p.e.r.s.o.s
"Você nem olhou para as coisas que admiro, e nem ouviu, mas era eu quem te chamava com meu último suspiro" (P. Moska)
E ela então jurou que, dos dias, sempre traria um pedaço no bolso. E diariamente, após a hora exata, o entregaria sem alardes. Era, por certo, a melhor fatia das horas.
Ele não suspeitava.
Ela se enfeitava, mas dentro do olho. E vagava pelo teto enquanto o mundo acontecia sem a perceber. O melhor do dia ela prendia com fitas. Aflita.
Em vezes o que guardava eram horas de atenção. Presente silente. N’outras a retórica.
Em dias entregava um tempo com histórias bobas que varria as cinzas do dia lá fora.
Em outros o momento mais leve do desvelar de um segredo infante, que desafrouxava a gravata dos compromissos formais, solenes.
E podia morrer o sol já naquele momento. E fechar o tempo enquanto voltava para casa pelo mesmo caminho de pés obedientes.
Não havia mais eventos que a despertasse para fora.
Enquanto os ventos zombavam pelos cabelos. Ele morava dentro.
E o resto, era procura: Um acalanto e uma cura pro dor dele do dia seguinte.
Ele nunca percebeu
E quando ela distraiu-se um tempo. Esquecendo de guardas das horas, pra ele, o melhor momento: ele desistiu dos dias. (sem perceber)

11.2.08

imagem: Bruno Cecim
- Me manda uma poesia? É quase maio.

E ele entendeu que por ser quase maio, por ser quase infinitamente maior, a voz dela não mais aparecia em caixa alta. Desenhava as palavras.
Ela que ficava bonita até enfeitada, às vezes apagava-se sozinha interrompendo as forças. As dele. Que morria pequeno, em areia, ao procurar entender como podia, tal criatura, partir-se ao meio, em aberto. E recebendo apenas um pedaço fálico, torná-lo inteiro.
O sarro da voz emaranhada distorcida num cenário de guerra. O cheiro das primeiras horas da roupa pega no varal.
Um mar e o mal do sal nos olhos nunca a impediram de esperar as ondas. Enquanto ele cuspia a ira da invasão de líquido salobro e espuma branca que a tomavam de sol a face.
Se ela pedisse, ele coraria o dia com algodões coloridos. Passaria mirando o céu sem interromper o cenário. Escreveria em cadernetas alaranjadas duas letras de um alfabeto morto e uma receita de bolo de liquidificador.
Mas não mandou um poema. Pois já era quase maio.Quase amor.

30.1.08

imagem: Bruno Cecim

Quando não aparece, me esqueço de desenhar no pátio um corredor de balões. Guardo a paleta das cores quentes embaixo do cobertor de inverno e a prece de graça no nervo da língua.Tomo café demoradamente e me corto com as cascas escuras do pão de cada dia. Acumulo frases e profecias que esqueço no bar (Ás 21h).
O vidro do balcão me conta as notícias velhas. E eu lhe devolvo agrados em cinzas bailarinas que não se conformam com o fim.Não aparece e o relógio prende o pulso com pressa. Aprendo a conversar com estranhos. Gosto da imagem da mulher que prende as roupas no varal de fios azuis entrelaçados. Enquanto as pernas disrítmicas tentam fazer música. Distante da presença só a ausência é acorde. Não me acode. E a rua passa em cima do meu ímpeto e me faz recuar duas casas...


imagem: Bruno Cecim
Toda permissão é um contrato em aberto.
Em desespero para que o outro encontre uma das suas ruas.
De preferência, as sem saídas.
Imagem: Bruno Cecim
E nada mais será outro dia senão por ela. Que acontece mansa nas horas de sono. Com sarro da voz amanhecida. Emaranhada ainda em um pescoço distante com a unha doente de sobras de carne.

Agora ela atende às horas e espera. Um pouco pensa, um pouco corre batendo as mãos no jeans. Apensa em um sofá que a engole em flores azuis. Absorta nas nuances do teto com desenhos formados pela umidade. Ela quer a chuva e a tarde inteira de lilás. Ela quer a paz que não cabe, que não caiba, mesmo que acabe.

21.4.07

Foto:Bruno Cecim

Orquestra natural*

"O som que você tira de vista. Desenha a música do dia."
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*Da série: "Filh0s da pauta- laborlirismo" em saudação ao tal "olho do fotógrafo" que tanto fala o Bruno.

16.2.07




Onde o dia não é prioridade
Nascer é um resvalo.
E a moça que caminha entre as horas de atraso
Prende um feixe de luz clandestino.
Menina/Menino

(Foto: Renata Rocha/ Bairro Nova Esperança – Sorocaba)

4.2.07

A tinta da noite não escorre pelos seus braços acrobáticos. Essa casa que cabe na palma da lua. A sua rua não corre por entre seus sapatos lustrados. Enquanto continua. A varanda da frente flerta sua solidão de copos. Os corpos de atraso tombam os dias. Todo um bulevar de postes panfletados. Enquanto continua. Os ossos estalam a falha. Os olhos não cumprem promessa alguma em rala poesia. Resta a rima pobre. Enquanto continua. Não basta sentir a falta sem reconhecer a presença!

3.2.07


Foto: Yves (Pablo)

Entendia a cidade pelas listras. Pelo pó do chão. Pisado seco na sola dos desatentos que, descansavam os encantos nos encostos dos bancos. Contava ovos e as horas pelo vento. Descrevia a virtude como nascente de Rio, e os sinais apenas para os bons frutos. Entendia a cidade pelos apelos riscados no asfalto. Pelo presságio das escrituras. Entendia e escultura dura das pedras soltas no assoalho. O barulho dos que estavam como sempre estiveram - confirmando a previsão. Entendia o presságio e negava a pressa. Como presa, passava os dias atento! Entendia a cidade pelos nomes de ruas - das ruas que antes eram nada - e os nomes que eram de ninguém. Entendia da idade o obsoleto das medicinas, e as meninas como se jamais tivessem ganhado corpo. Entendia a dor, por respeito, e o domingo pelas vestes limpas. Entendia da distância que o homem é do seu lugar, e do tempo - um dedo de Deus. Um dia entendeu que já entendia tudo - entediou-se e morreu!
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Imagem: Yves ( Laranja c/ mamão)
Amarelo
Réstia de sol. Apavoro-me com o desconforto em poder enxergar tudo. Observar a improbabilidade de escurecer mais cedo. Medo no verso da caixa de lacre rompido. O dia comprido como o vestido da moça morta na manchete do jornal. Engolida as horas de sal pela espuma murcha. Eu vejo pelo vão de um olho apertado, entreaberto. A sua boca entreaberta engole o sol. Mais uma crônica policial. Apavoro-me com o fato da foto da Bia em “O dia”. Fotofobia.


5.1.07

Para Ribeira(inteira. Com sacanagem, sem sacanagem)


Tem a casca da fruta que se come por inteiro. Sacro-profana. Jorrada aos sóis que se abrigam pelos montes pontiagudos, como os seios das servas soturnas. Um entre-as-pernas que permite esperas. Esperrama-se em aperto, e corta-se toda pelas águas. Líquido que escorre até que, do crispar da natureza, façam-se as espumas. E acaba de toda num mar aberto.



Não me pergunte os anos, pois os planos foram caindo todos, um a um. E hoje o dia que inauguro é também o que já entendo como póstumo. A cada fase uma frase de um livro carcomido me tinge a camiseta rota. Imagens bélicas invadem o país sem religião que, a cada estrofe, pinta um novo Deus na bandeira alheia. Eu nunca fui convincente pela manhã. O hálito das primeiras palavras é ácido também. Toda a soberba do primeiro trago e do último, eu aprendi com a espera. Esparramando idéias nas horas que desligavam o meu pulso pelo relógio. Nunca ter completado as metades quase me fez inteira. E a liberdade do espaço é como meio vazio – meio cheio de ar. Não me apresente sua crença que eu duvido ao ouvido. As minhas linhas não são milhagens e não há céu que pouse as asas de mim. Dias desses o hierofante perdeu dois dentes. Dias depois, dois minutos segurando minha mão gelada. Há mais veias que velas iluminando a passagem. Nem de todo espírito, nem de todo carne. Planos de ser coisa fluída acabaram no último verão. Escorreu toda a simplicidade mística de assunção na minha glabela desatenta, incrédula. A profecia e as manchetes de enchentes embrulham o peixe de olhos arregalados. Ninguém morre por completo no mesmo momento. Sem ao menos saber dos planos do governo. Sem ao menos saber que o instante, agora, é o tempo. Antes, a desculpa.



A soberba. O primeiro, como no último, guarda a soberba que o dia comeu com mãos, em pé, no desespero do relógio mecânico. O trago trazia um resto de humanidade própria. Compaixão é o que dizem para outros. Não cabe em si, para si, uma compaixão tamanha. Resto de qualquer coisa que passou displicente e os olhos que acompanharam não prendeu na parede. É na fumaça que catalisa-se o quê de vida aconteceu na distração. E a distração devolve como mãe preta e boa, a última lasca do doce que a boca não sabe pedir e cerra-se, em preces e ladainhas mudas para que o olho denuncie sem aflição. Nada de compaixão. Ao último cigarro da noite.

18.12.06

Por cima dos aviões...


Eu tenho medo de gente organizada, arquivada.
Gente lista de supermercado, item por item.
Eu temo gente crescente, decrescente, sincronizada.
Eu temo mais a ordem lógica das coisas, do que o caos.
Tenho medo de gente gaveta, separada por etiquetas, embalada em plásticos.
Medo dos grampos vermelhos que vedam a entrada de corpos estranhos.
Tenho medo de gente normal, igual, comum.
Medo dos corpos comuns.
Medo de quem não pega, não cheira, não morde.
Medo de quem tem medo de carne.
Medo de quem tem tantas ideologias. Simbologias. Idiossincrasias.Parágrafo, aspas e travessão.
Tenho medo de quem não atravessa a avenida sem ter motivo.
Medo de quem sabe o lado certo de ir.
Medo de quem sabe onde ficar.
Eu tenho medo de quem me pergunta demais.
Medo de quem me esquece demais.
Medo de quem finge por medo.
Medo de quem ri sem graça.
Medo de quem usa veneno contra traças, contra caspas, contra cócegas.
Temo quem não fala sozinho, quem usa mensagem subliminar.
Eu tenho medo de quem não tira sarro na minha cara e nem jorra privado a baixo a merda que sempre é o day-after.
Tenho medo de ser protegida.
Eu tenho medo das coisas simples da vida.
Medo de gostar das coisas simples e pegar na mão.

Domingus Tecum
Foto: Yves ( Moléstia)

O Domingo está lindo – o astro rei invade a sala de estar... Impávido colosso. Saudades – a tradução do que verdadeiramente seja a última flor do lácio.Enquanto o copo – plácido, plástico, descartável – acumula restos de um líquido amarelado, quase redenção! Restos de um tipo de papel envolto a uns tipos de elementos químicos e tabaco – quase poluição! Mea-culpa da semana inteira. Que começou na Terça. Que alterou registro de nome de filho e ideais de vida inteira. E nenhum hierofante de esquina apareceu pra ler a minha sorte. Para me dizer que pode ser amor, ou dor, ou carência...Paciência. Hoje é Domingo – O Sílvio Santos de cueca –na minha imaginação mambembe - pede audiência. O meu umbigo pede decência. O Zeca Baleiro pede passagem. Meu estômago – pede Ribeira. E o Lenine volta - um pouco mais de paciência!!!O Domingo está indo – a movimentação do tráfego na Marginal Dom Aguirre tremula a coleção disforme de latas entreabertas, equilibristas entre a pilha de revistas da semana que passou e os recortes de jornais de ontem. Neles – os classificados não são os primeiros - são os que em desespero se anunciam, se trocam, permutam-se. A labuta do dia de folga e a foto que enrola o peixe envolto a matéria da construção dos piscinões. A vocação dos sermões é do dia de hoje.O Domingo está rindo – Logo passa alguém feliz na televisão que, hoje, eu não me permiti. Logo as casas, os templos de louvação, se renderão em preces e murmúrios. O taciturno senhor dos castigos se rasgará em sorrisos ante as oferendas de fé e sessões de lordoses. A dose do cálice - para que calem-se – nunca é compreendida. E o Domingo é tomado pela retórica das oratórias decoradas do livrinho."Meu santinho – eu não sei o que significa unigênito – mas é meu jeito""Meu senhor – Homilia é o mesmo que humilha?E a multidão de ovelhas seguem herméticas ...E o Domingo segue depois do sol.
Notas dominicais: Não há um boteco aberto num raio de 200 ms