4.5.10

Foto: Yves

Ninguém percebeu que eu cerrava o dia por pressa/ Porque ser presa liberta um tanto/ Mas só aquilo que a gente cria sem saber.

Faz sentido ter sono e gastrite.
Foto: Yves



Ela sorriu de si. E arqueou a cabeça para baixo, negando ao chão o propósito do limite. Não, nada mais acabaria. Nem aquela noite mesmo se o dia lavasse a calçada em baldes verdes. Limpando o infecto da noite que sempre azeda um pouco antes do sol.


E era um ano que fedia. As ruas vertiam as tintas molhadas de panfletos que até os postes devolviam ao léu. “Para mudar”. “Compromisso com a cidade”. “Pela educação”. Uns rostos sorrindo de canto. Olhando para o nada. Um ano onde era difícil entender o que ela cochichava com a amiga de echarpe laranja-fim-de-tarde-visto-do-Paço. E os mais românticos, talvez, tentassem descobrir qual era sua canção preferida. Ou proferida em segredo de dentes. Mas havia os malditos jingles compostos em cima de funk´s cariocas e músicas sertanejas universitária.

Ela se ia além de si. Horas na mesma posição. Entrou a moça de jeans e sapatilha. A outra de espartilho aparente. Derrubou uma garrafa um outro que flutuava de casaco com golas tapando os ouvidos. Lá no fundo, um músico com olhar fixo para a mais cheia das mesas tropeçava frases, buscava uma reprova que nunca chegava. E convencido dedilhava mais uma canção triste como devem ser as canções nas noites que irão azedar, por fim.

Ninguém combinava com o lugar, nem o lugar combinava com as mesas empilhadas. Tudo ali nascera para o confronto mais do que para o conforto. O banheiro fétido, o balcão alto e as imagens sempre de alguém de costas olhando um fundo de nada. Nem mar nem céu. Ela estava sombreada pela luz amarela que deveria ter se perdido às vistas do design. Em uma mesa com gente como nas outras mesas. Com conversas paralelas. A música triste não manchava a alegria criada pela fermentação dos líquidos. Ela tinha um borrão na maquiagem. Talvez pela alergia à fumaça que o garçom pulverizava em formas de desenho no ambiente. Talvez por dor de dente de cerrar palavras. Qual seria a mensagem que não sabia dizer, mas trazia na camiseta lilás? Promete? E tanto era modo de moda e modo de dizer medo. Mas ela disse: SUCRERIE. Com um forjado francês, e riu-se toda.


Foto: Yves


MoraDOR

Desossaram a velha casa, tijolo por tijolo. E a esquina virou campo de pó em aberto. Onde o olho caía no poço de tanta imensidão de nada.


Em aberto.

Do outro lado da rua de dentro do olho, o homem via o outro derrubando seus tijolos, osso por osso. Do tempo quando ainda era moço.

E envelheceu um quarteirão de poeira nos olhos.

8.4.10

Naquela Mesa

Do canto esquerdo do isqueiro, copos disformes


Amassar latinhas

A massa morfa mofa e move as ventanas com a língua

Ledo esforço


Do canto esquerdo do nó, o peito

Entre correntinhas

E a moça demora nas entrelinhas

Mero esboço


Do canto esquerdo do direito, ele mesmo

Centro da rinha

E a mesa parte, sem as partes

Medo deposto

25.3.10

Dos "Famas"

Toda hora desprendia de uma pressa. Relógio nenhum pontuava o gosto de saliva em vinha. Via da tudo com demoras. Mas ruminava em vísceras. A voz, a voz... Desta vez. Como em outras: desta vez. Mas nunca ainda era.

Frente-verso

.precisando me fazer um carinho. e te fazer um verso. mas de frente.

28.11.09

Entre o céu e o mar


Navegar, nem sempre é preciso; nesse caso, navegar é muito incerto. A única coisa certa, em se tratando de Antártida é a incerteza. Previsão, cronogramas e afins servem para uma única coisa: sofrerem alterações. Enquanto escrevo, sentada em frente ao Estreito de Magalhães, no cais da Asmar, onde está ancorado o Navio de Apoio às Pesquisas Oceonográficas (Napoc) Brasileiro, Ary Rongel (incorporado à Marinha desde 1984), a única informação precisa que tenho quanto a nossa ida ao continente é que 'nada está certo', como afirmou o Comandante Romualdo, da assessoria de imprensa da Marinha do Brasil.

A única previsão que seguimos aqui é a do tempo e, segundo os meteorologistas, as coisas não estão nada propícias ao embarque, seja pelo mar ou pelo ar. Até o momento em que escrevo (19h no horário de Brasília), a maioria da tripulação considera mais provável que embarquemos nesta terça-feira, mas de carona com o avião de apoio da Força Aérea Brasileira (FAB).

A idéia não me agrada muito, tampouco os outros companheiros da imprensa. Antes de virmos até Punta Arenas, a Marinha nos deixou a liberdade para escolher se queríamos realizar a travessia com o navio ou com o avião. Quem está aqui, já estava 'psicologicamente' preparado para viver as aventuras do temido 'Drake', um dos locais com as piores condições meteorológicas para a navegação, e um desafio para qualquer marinheiro, principalmente os de primeira viagem. Na segunda-feira, as informações oficiais eram de que as ondas no Drake chegavam aos 8 metros.

A Marinha não descartou a possibilidade de voltarmos, então, pelo mar, caso confirme a ida com o avião, que realiza a travessia até a Baía do Almirantado - endereço do Brasil no Antártida - em cerca de 3h, bastante diferente da travessia marítima, que leva cerca de 4 dias, caso o 'Drake' esteja mais 'tranquilo'.

Enquanto aguardamos uma posição oficial, o melhor que há para se fazer aqui, já embarcados no navio, é conhecer melhor as instalações.

Toda a imprensa que participará desta fase da Operação Antártica (Operantar) embarcou no domingo. Como 'toda', leia-se eu, mais o repórter do Estadão Carlos Orsi, e dois repórteres cinematográficos da Cia. do Filme, de Brasília, que estão filmando um documentário.

Os demais fizeram a opção de irem pelo 'ar', e na segunda-feira levantaram voo rumo ao continente. Caso confirmem nossa ida nesta terça-feira, provavelmente na quarta-feira já estaremos na Base Comandante Ferraz, conhecendo seus 60 módulos que abrigam militares para a manutenção e pesquisadores. Lá, são realizadas importantes pesquisas sobre biologia, geologia, oceanografia e, principalmente, mudanças climáticas, já que a Antártida é o local mais apropriado para os estudos sobre aquecimento global, camada de ozônio e outras mutações climáticas que interferem, diretamente, na vida do planeta.

No primeiro dia no Ary Rongel tudo foi novo, a começar pelos acomodações. Depois de dois dias hospedada em um hotel 4 estrelas, com cama gigante e banheira de hidromassagem, senti na pele o motivo da tripulação chamar, carinhosamente, os aposentos de 'Sarcófago'. Eu chamaria de gaveta, que me pareceu bastante similar. O principal problema está na 'operação' para caber em uma das camas do treliche - são dois em um único quarto que ainda tem banheiro e armários. Depois do malabarismo inicial, tudo volta a normalidade e dorme-se bem; é só não ser claustrofóbico.

Na rotina diária, os oficiais se esforçam para que nos sintamos à vontade e conseguem. Na segunda-feira, após o almoço ( arroz, feijão carioca para combinar com a tripulação, salada e filé de frango grelhado), teve ainda um bolo em comemoração ao aniversário de médico responsável pela tripulação. O que se sente é que a intenção é tornar o ambiente o mais familiar possível, mesmo sob uma rotina militar. A maioria regressará para casa apenas no que é considerado o início do inverno antártico, em março.

Com uma tarde de primavera onde a temperatura máxima é de 4 graus centígrados, não fica difícil entender o motivo que leva a Marinha a considerar apenas duas estações para a realização da operação; outono e inverno é quando as condições de acesso ao continente são mais delicadas, por esse motivo, apenas militares e pesquisadores pemanecem no local. Na primavera e no verão austral dá-se o descongelamento das geleiras e a diminuição nas passagens de frentes frias que impedem a locomoção, e é nessa época em que se realizam as Operantar’s, que vão de outubro até março.

Até logo, América!




Punta Arenas está em clima de eleições parlamentares e a zona portuária em obras. Graças ao Sol, que não se intimidou em aparecer no domingo, foi possível fazer um reconhecimento melhor da cidade onde é fácil andar a pé, sem mapas, e não se perder. Como de praxe dominical, as ruas varridas pelos ventos estavam vazias e silentes. Ontem foi meu último dia na cidade. Agora estou no Navio Oceonográfico Ary Rangel, onde embarquei ontem e, dependendo das condições meteorológicas, partiremos nesta manhã. Se o mar estiver calmo e não tivermos que apoiar alguns projetos, devemos aportar quarta-feira na Baía do Almirantado, endereço oficial da base brasileira na Antártida.

Mesmo na última cidade antes do continente gelado, dizer que está indo à Antártida causa frisson muito parecido com o que ocorre no Brasil. Também me questionam sobre o que irei fazer, se não prefiro ficar na cidade ou por qual motivo não estou no Brasil, curtindo a primavera quente tupiniquin. A Antártida, para eles, é apenas um apelo turístico, pois a maioria das pessoas não embarca até o continente que, mesmo fazendo parte de alguns roteiros de agências de viagem, ainda é limitado à milícia, pesquisadores, jornalistas e políticos. Sim, nos últimos tempos, a base brasileira recebeu muita visita de parlamentares, como a do deputado federal sorocabano Renato Amary (PSDB), que também visitou a base. No início de 2008 foi a vez do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conhecer a casa brasileira no continente, em decorrência de um repasse de incentivo à pesquisa no local.

Antes da despedida da cidade mais austral do mundo, fui conhecer alguns pontos locais, sem roteiro, indo à mercê do vento. Primeira parada no Museu Regional de Magallanes - gratuito, acessível e com muita informação - um passeio desde a pré-história dos povos locais, explorações, desbravadores, até a formação da cidade. O Museu está instalado na antiga residência de Maurício Braun, um dos impulsionadores do desenvolvimento local. A chegada do homem branco, as lendas indígenas e a defesa chilena do território, que já vinha sendo invadido pelos europeus, estão espalhadas em fotos, utensílios e documentos - a maioria marítimos. No mesmo local, ocorria uma exposição de máscaras artesanais.

Bem próximo fica o Museu Naval, um dos locais que mais eu queria conhecer, porém estava fechado e a visita ficará para a volta, marcada para o dia 17 de dezembro. Enquanto avançamos a cidade, de encontro à zona portuária, os ventos começam a ficar mais intensos e o frio mais impiedoso. Mesmo com o peso do corpo, das roupas e de uma mochila, o sopro consegue desiquilibrar, quanto mais próximo chegamos do mar. A vista compensou: um mar azul e enfurecido quebrando numa praia de areia escura, guardava navios de diferentes cores, tamanhos e nacionalidades. Um encontro de extrema beleza entre o mar e a cidade, mas em contraste com garrafas e roupas deixadas na estreita linha de areia, tomada de conchas.
Na cidade onde as horas exatas e as horas e meia são anunciadas pelo badalar de um sino, fora cafés, bares e restaurantes, a única coisa que vi aberta no domingo foi uma casa de câmbio, já que turista é o que não falta, mesmo que muitos do próprio Chile. Nos Pubs misturam-se raças. Dizer obrigada é a senha para ouvir rasgados elogios ao Brasil e ganhar instantaneamente amigos. A simpatia pelo País é incontestável e a maioria dos chilenos tem uma história relacionada ao Brasil.

A partir de agora, a viagem tomará outras cores e formas e passará a depender exclusivamente das ordens da natureza. Quanto mais nos aproximarmos do continente, mais ficaremos à mercê das condições meteorológicas. Enquanto os oficiais da Marinha não veem a hora de cruzar o Estreito de Drake - um dos locais com condições meteorológicas mais complicadas para a navegação e que leva cerca de 36 horas para ser atravessado. Aqui, a marinheira de primeira viagem só espera ter condições físicas para continuar contando histórias da travessia. Ah, e por motivo de trabalho do oficial da Marinha sorocabano, o Eugênio, a entrevista com ele teve que ser adiada e o assunto ficará para um próximo Diário de Bordo. 

Antes do embarque, uma parada no bar do Carioca para conferir o jogo do Flamengo com a tripulação carioca. Hasta!

15.8.09

(Flores e Cabos - Imagem by Yves)

.As palavras usam sapatos dois números maiores que o pé da letra.


31.5.09

-estranho. mas o conhecia como a letra inteira de uma música perdida. pela melodia. e era um dia inteiro depois das tardes. como se inaugurasse o sol nas encostas da noite. depois de toda morte. soprava ao pé do ouvido. e os pés partiam em mim em ladrilhos. todos desconhecidos. riscando novos riscos. arrancando a letra que forma o nome. comprido. cumprindo à risca a sentença de estarmos vivos. e sós. agora restam as letras do seu nome. não se repetem. percebo. quase soprado. beijo na face. as vezes eu mordo a língua. e não te acho mais.__MF

18.6.08

Outono

Então me vêm os astros. Dominar aquilo que eu em sei. E eu me entrego toda em explosões estelares. Viro fagulhas de algum Big Bang interno. Uso termos coesos. E eu que nem sei.
Mas a esta altura, o que é bom pode durar toda a vida, e eu já não tenho a pressa presa aos cabelos. Eu entendo até o desacelerado das horas. E compro promessas para cumprir num dia de santo.Há tempos guardo num pano o plano de estarmos bem e só – e daqui, de longe, me parece ato solene. Então peço sirenes pela cidade. Que me alardeiem do quanto distante é o querer da pelugem da sua nuca. Que nunca se anuncia. Diferente desta estação indefinida que me invade toda.

4.6.08

Despachos
imagem: Yves
"Nos meus retiros espirituais, descubro umas coisas tão banais...Que gente maluca tenta resolver" (Gil em Retiros Espirituais)
27
Aquilo que desenhava na alma. Cheia de dedos. Presa. Começa a doer à cabeça, o coração. Os lábios amortecidos da mesma posição de minutos. Travando aquilo que não tem como sair. Ela tem um teclado, ela está trancada, ela adoece no espelho e se enfeita de instantes. Ela tem vocação e afeições – vive aflita. Ela mora no 27.

____________


Bolha
Não assumo a fala em primeira pessoa. Quase nunca. E aos pouco vem à necessidade em queimar a ponta dos dedos. Agora a coleção de bitucas desenha uma flor de pétalas branca ao lado de um telefone. Mudo. Há de haver um lugar no mundo onde caiba a dúvida. Ligo. Não ligo.

____________


Espelho de teto
Você fala, eu desenho. E essa voz que muda e interpreta. Eu quase muda. Aí você se demora em dar as chaves. Eu não descanso enquanto morro. De você, os tratados formais. Agora já chega um pouco mais cedo. Não sei se gosta. E aceito que me confira um grau para qualquer talento. Enquanto caço olheiras pelo retrovisor. Nem me questiona sobre o meu tanto de visitas. Engrossa as vistas e se preocupa com as outras estações. Pare o carro! Pede alguém à frente. A gente nem se olha. A estrada logo acaba onde inicia a outra.

____________


Estação
Não é difícil. Também não dói daquele jeito de querer juntar os joelhos no estômago – e espremer a nesga de espaço que nada sente. E não acontecem sinais no céu. Nada de roxo-laranja-rosa. Nada de sol insone ou de luz exibida. Não escorre. Não brotam escamas, esporas da minha pele que sente calor e frio e meia-estação. Mesmo sem nunca ter entendido o que é meia-estação. Não mato e se morro é só até o final da música. Aperto o botão.

imagem: Bruno Cecim

Sobre o tempo
"Vêde o pé do ypê apenasmente flora. Revolucionariamente. Apenso ao pé da serra" (Belchior em Ypê)

Arqueada. Magra. Morenice de um sol sem requintes de fator de proteção. Pisa a terra com pés. Não precisa também da proteção da borracha, do couro ou do plástico. Tráz as unhas pretas nos pés como na pele. Está às voltas do fogão. Um móvel imóvel esculpido na tábua pelo barro. Buraco de onde saem labaredas. Ela ajeita o galho seco para insinuar o pedido de mais calor que o gato pequeno e rajado pede, na boca do forno.
Lá fora, o dia insiste em acontecer.

A água que espera ferver é para a fusão com o pó do café colhido no quintal, torrado e moído por ela no pilão que descansa embaixo da mesa. O café é para mim. E mora dentro de uma lata que tem cheiro de casa amanhecendo.

Na casa, os gatos ainda pequenos sobem e descem das mobílias escurecidas pela fumaça. A fumaça, como o tempo, não entende as cores vivas. Eu fumo como quem pinta um tom de morte para selar o passar do tempo. Tudo o que nos une é nossa separação. E o tempo fuma nossos momentos de lacônismo. Sobe a fumaça e anuncia que o café está pronto, preto. E que o tempo é fumaça. Tem desgraça, mas tem graça. Tem tosse, mas tem silêncio.

Ela foge dos meus olhos desviando o pretume da minha história, do mesmo modo que o menino que não suporta se demorar em mim desvia o seu brancume do cume dos meus olhos. Acho graça. A história que aconteceu sem ser, e a que não sendo, acontece.
Quando a abraço, queria ter intimidades de saber quantos são os ossos que comprimo. Quando o abraço - também.

Ela fala como quem domina um alfabeto peculiar. Aprendeu na nova terra o escudo da salvação: a língua. Passado mais de 50 anos, difícil crêr que, quando roubada para estas terras, não sabia a própria língua da nação. Hoje fala um linguajar nato. Não é mais a menina bonita de pele escura e olhos de gato que um tal senhor, pelo tal do amor, tirou da proteção de uma colônia de nativos no sul do país, para uma região pobre de peões do minério.

Ela pouco lembra e fala com um paiero que equilibra no canto da boca murcha. O mais sensível dos amigos identifica a beleza que se perdeu, atrás da fumaça. Perdeu o amor por uma picada de cobra, antes, vieram os filhos. Uma mistura que riscou um exótico em minha mãe: morenice fundida em olhos de gato.

- É bão viver assim!
Quando ela me fala acredito. Peço a benção com timidez. Ela acolhe com a mesma condição. E são tantos tios e primos que eu jamais decorarei. Aí vejo minha mãe no outro cômodo da casa que têm frestas de madeira e chão batido. Lá fora, um banheiro de casinha. Minha mãe ri e em algum lugar desponta raiva, compaixão e infância. Eu não posso entender sua incompreensão de sentimento. Ela acelera, volta, mas sou eu que continuo na cozinha. Um espaço retirado da casa, como são as casa nos sítios. É lá que ela, magra e arqueada fica. Minha mãe não consegue, por algum sentimento ativo, atingir a intimidade da cozinha. E ela, por sua vez, não consegue cobrar essa intimidade de minha mãe, nem transpor os espaços de madeira em aberto.

Há um peru gordo em cima da árvore, galinhas, galos, gatos, cachorros e porcos no quintal. Há um córrego atrás que, quando inunda, atinge a casa. Há mato e do outro lado plantação de milho, feijão, arroz, mandioca e café.
Ela vive da agricultura há anos. Com meu amigo sensível e biólogo que nos acompanha, começo a discutir a questão da crise alimentícia, da soja, da intenção de morar no mato e fazer uma produção em mandala. A irrigação, a inflação e a exportação. Ela observa sem desviar o olho da fumaça do fogão, que defuma pedaços de carne. Ela interfere e nos diz que o que vivemos é uma loucura. Ela vende o feijão dela por R$ 2,00 o quilo e nos pergunta quanto pagamos. Respondemos que quase o triplo e ela ri a soberba de um IDH falho.

Eu tento chamá-la de vó em um tom mais grave. Ela pergunta da gravidez da “menina”, minha irmã mais nova. Ela tem, junto a um mural de fotos de mulheres de maiô que meu tio conserva, nossas fotos. Pediu que minha mãe nos levasse em retrato. Disse que era para pedir ao “Divino Espírito Santo” por nós. E ela tem tantos netos que me sinto privilegiada.
A primeira vez que a vi, era uma festa do Divino. Havia festa, bandeira e pipoca no quintal. A primeira vez que minha mãe a viu, era também uma festa do Divino. E ela agradeceu.

Quando teve que dar minha mãe, com dias ainda, meu avô acabara de falecer, pela tal cobra. Já havia mais filhos e, a pessoa com a qual iria morar não queria mais uma, então teve que abandonar minha mãe.
- Sabia que o Divino iria te trazer de volta. Quando te entreguei pedi a ele para cuidar de você. Ela disse a minha mãe.
Ela nunca sai até o quintal para nos dar tchau. Ela nunca nos procurou. Nunca se sentiu no direito. Fica “faceira”, como diz, em saber que minha mãe estudou. Para ela tanto faz as cinco faculdades que minha mãe fez, o fato de ter um trabalho é o diferencial entre os filhos criados por ela, que só podem tirar o sustento da terra.
- A importante é estar estudada. Comentou meu tio, quando reclamei de cansaço, trabalho em demasia e distancia da mãe.
Os valores deles e a preocupação é o avançado da minha idade ainda na solteirice.

Antes de sair, fiquei procurando motivos que defendesse o meu parecer de que a avó que conheci tardiamente, coitada, trata-se de uma pessoa bastante pobre. Não usa sapatos, as roupas são surradas, a casa é de madeira com frestas. Tudo de material muito simples. Sem computador, sem banheiro, no muito um rádio e uma televisão. Assim como eu, sem geladeira. O fogão é à lenha. Nada lá é uma Brastemp. Sem água encanada. Sem piso no chão. Sem salário fixo... Mas não consegui.
Voltei com sacolas de arroz, feijão, mandioca, palmito, café e carne de porco conservada na própria banha, em lata. Mesmo sabendo que quase nada eu consumiria, sai imponente. Sem contar que ganhei duas esteiras de Itaboa, para colocar embaixo do meu colchão ortopédico que fica no chão, e outra para, enfim, me desfazer do velho e sem graça sofá-brega-azul e liquidação.

Enquanto a lua despontava, nos entretemos numa prosa, já que a televisão pega mal.
Ela arruma o lenço para prender os fios brancos que despontam. Cruza as pernas magras como quem apinha madeiras. Cuida do fogo que só é mantido para manter a calefação. Falo que este frio da noite e sol da tarde é bem outono, com a autonomia de quem rouba a cola alheia e sustenta o X na afirmação. Ela desfaz com a cabeça, me corrige e diz que é coisa do tempo e tempo não tem essas coisas:
- Tá começando a formar chuva e já amanhã pode cair uns pingos por cá. Já é hora de chover esses dias que eu sei. Ela disse olhando para um céu limpo.
- Sabe como vó? Perguntei meio incrédula e dizendo que a previsão da televisão era para o final da tarde.
- Sei por saber, oras, e olha que começa a pingar cedo, avisou, olhando para o céu e para o nada, como se equivalente.
E de nada adiantaria dizer que, diariamente, acompanho a previsão. Lembro que a tv ali, também não pega bem para ter acesso a estas informações. Vamos embora na estrada de poeira acompanhando a lua que, diferente de nós, sobe serra.
Na manhã seguinte. Tempo de fechar malas e as vistas. Enquanto o carro passa pelos morros da infância que insinuam traços femininos. Os pingos da chuva que deslizam no vidro no carro não me parecem assim mais tão precipitados.
*(Para quem cobra histórias/estórias)

2.4.08

Imagen: Yves (Paradise Now)
Quem vive por último já morreu ou (Quem morre no outro não vive)


"Que a vida lhe dê muita saliva, pra lamber sonhos em carne VIVA" (Kléber Albuquerque em Isopor)

A dor era por não haver sinais físicos. Enquanto corrompia-se no cerne, amontoavam-se ossos saudáveis a olhos nus. Ele queria muito morrer naquelas tardes e o homem desconhecido lhe atestava sanidade. De um ponto mais ilha do que porto ele acenava. Os sinais vitais coravam as faces que queria estar embebida em éter. Em algodões que suavizassem as narinas do fétido dos dias comuns. Da dor do mesmo amor de todos os dias há anos. Será que ainda respirava? Inspirava-se naquilo que retia no suor, por medo. Vertia da glabela o iodo que aspirava. Intoxicação. Mas não se tocava. Tomava uma aspirina para o sentimento que incomodava. E as datas o acomodavam em retidão. Quando preso pelas horas, ir embora era uma redenção ambígua. Ficar pra onde? Ir pra quando? Não ter caminhos, agora que os anos o prendiam pela coluna, era desafio para tabuleiros. Mais fácil sugerir que alguém acertasse o alvo em movimento. Mais fácil escurecer mais cedo. Trancar-se no modo módico que o medo assalta os nervos. Arranhar a tez do mundo subcutaneamente. O fracasso dos braços que não alcançavam o abraço necessário franzia-lhe os ossos. Estalavam as estalactites de líquidos petrificados pelo tempo. Perdido, pressionava o maquinista. Em vista do que não tinha controle, o desespero.Espiava, de longe, o bloco que queria compor. De perto, calculava friamente: muita pressa, muita fumaça, muita gente. Desistia de ir. E angustiando a pressa da morte que nunca se anunciava. Negava-se, todo dia, LEnTALMENTE. O alento era morder as palavras proferidas de lábios que lhe cuspiam estrelas.Cadentes. Poderia ser a chance. Mas nunca soube fazer a elas o pedido.
Imagem: Yves
A Ressaca dos MALES (Para Sandra)
"A mulher em milhares" (Luiz Tatit em Capitu)

ONTEM - Uma sala de entornos a serem decifrados abria-se, quando permitia o afago do espaço. Toda cheia de vagos. Um caldo, um Diazepam.
As dores musculares morfinavam-se na brandura do auto-trato.
Ela só pedia o que negava.
As outras dores, em doses homeopáticas, findavam-se com o carnaval. E ele passou sem rastros.
Na espera, a fuga acarinhava as horas. Suas demoras. E era um tempo em que esperar a felicidade era como roubar amoras sem deixar nódoas. Ela trazia o gozo estampado na camisa e as marcas furtivas desvelam-se subcutâneamente.
Entre os dentes não aceitava nem os eternamente contentes, tão menos os incontestáveis. Inconteste.
A ressaca dos mares a entretia e a entediava. Não tinha crivo para ser Capitú, mas não teria peito para ser outrazinha. Antes então seus pêlos soltos pela casa ao apelo.Antes do que o Depois que vinha sempre igual ao antes.Ela queria o agora com o novo.
E passado os dias inúteis da semana de contas exatas, que sempre finda ao sétimo dia. Com as mesmas notícias frívolas que nascem para acabarem envoltas aos olhos distantes dos peixes. Ela se permitiu.
-
-
ÀS 21H33 DA SEXTA-FEIRA - Não teria nada a comemorar naquele janeiro. Era inteira nas metades que se juntavam, farrapo por fiapo.
Lentamente, pela sala, levantava os iMÓVEIS em mogno e soprava-lhes toda a paúra de poeira dos olhos.
Havia graça no incômodo das horas que invadiam as janelas.
Ela não possuía mais relógio e entretia-se com os saltos soltos nos tacos que não ecoavam mais, alardeando os cantos em desencontros. O som seco do assoalho já fora prenúncio de noite apagada. Não mais.

Não havia um comunicado prévio para endossar o lento do dia de quando quer-se muito "exatos momentos". E ela ia. Não mais indecisa com o aceno do tempo. Com o acerto do imbróglio que nasceu para não ser coeso.
E dentro, aquilo que não cabia mais, tornou-se coisa fluída.

31.3.08

Imagem: Yves
D.i.s.p.e.r.s.o.s
"Você nem olhou para as coisas que admiro, e nem ouviu, mas era eu quem te chamava com meu último suspiro" (P. Moska)
E ela então jurou que, dos dias, sempre traria um pedaço no bolso. E diariamente, após a hora exata, o entregaria sem alardes. Era, por certo, a melhor fatia das horas.
Ele não suspeitava.
Ela se enfeitava, mas dentro do olho. E vagava pelo teto enquanto o mundo acontecia sem a perceber. O melhor do dia ela prendia com fitas. Aflita.
Em vezes o que guardava eram horas de atenção. Presente silente. N’outras a retórica.
Em dias entregava um tempo com histórias bobas que varria as cinzas do dia lá fora.
Em outros o momento mais leve do desvelar de um segredo infante, que desafrouxava a gravata dos compromissos formais, solenes.
E podia morrer o sol já naquele momento. E fechar o tempo enquanto voltava para casa pelo mesmo caminho de pés obedientes.
Não havia mais eventos que a despertasse para fora.
Enquanto os ventos zombavam pelos cabelos. Ele morava dentro.
E o resto, era procura: Um acalanto e uma cura pro dor dele do dia seguinte.
Ele nunca percebeu
E quando ela distraiu-se um tempo. Esquecendo de guardas das horas, pra ele, o melhor momento: ele desistiu dos dias. (sem perceber)

11.2.08

imagem: Bruno Cecim
- Me manda uma poesia? É quase maio.

E ele entendeu que por ser quase maio, por ser quase infinitamente maior, a voz dela não mais aparecia em caixa alta. Desenhava as palavras.
Ela que ficava bonita até enfeitada, às vezes apagava-se sozinha interrompendo as forças. As dele. Que morria pequeno, em areia, ao procurar entender como podia, tal criatura, partir-se ao meio, em aberto. E recebendo apenas um pedaço fálico, torná-lo inteiro.
O sarro da voz emaranhada distorcida num cenário de guerra. O cheiro das primeiras horas da roupa pega no varal.
Um mar e o mal do sal nos olhos nunca a impediram de esperar as ondas. Enquanto ele cuspia a ira da invasão de líquido salobro e espuma branca que a tomavam de sol a face.
Se ela pedisse, ele coraria o dia com algodões coloridos. Passaria mirando o céu sem interromper o cenário. Escreveria em cadernetas alaranjadas duas letras de um alfabeto morto e uma receita de bolo de liquidificador.
Mas não mandou um poema. Pois já era quase maio.Quase amor.

30.1.08

imagem: Bruno Cecim

Quando não aparece, me esqueço de desenhar no pátio um corredor de balões. Guardo a paleta das cores quentes embaixo do cobertor de inverno e a prece de graça no nervo da língua.Tomo café demoradamente e me corto com as cascas escuras do pão de cada dia. Acumulo frases e profecias que esqueço no bar (Ás 21h).
O vidro do balcão me conta as notícias velhas. E eu lhe devolvo agrados em cinzas bailarinas que não se conformam com o fim.Não aparece e o relógio prende o pulso com pressa. Aprendo a conversar com estranhos. Gosto da imagem da mulher que prende as roupas no varal de fios azuis entrelaçados. Enquanto as pernas disrítmicas tentam fazer música. Distante da presença só a ausência é acorde. Não me acode. E a rua passa em cima do meu ímpeto e me faz recuar duas casas...


imagem: Bruno Cecim
Toda permissão é um contrato em aberto.
Em desespero para que o outro encontre uma das suas ruas.
De preferência, as sem saídas.